ESTRATÉGIAS NA POLÍTICA: caminhos de acertos e erros, por Israel Rêmora

ESTRATÉGIAS NA POLÍTICA: caminhos de acertos e erros, por Israel Rêmora

Na política as estratégias são frequentes e elementos decisivos para a vitória e permanência no poder, assim como nas batalhas. A história está marcada por vitórias célebres onde a mudança numa peça do tabuleiro e o caminho determinado pelo líder culminaram na glória.

Poderíamos relembrar aqui os feitos históricos dos gregos na guerra de Tróia. Ao se virem incapazes de vencerem a guerra, tiveram uma ideia luminosa: ofereceram de presente um cavalo recheado de guerreiros. Napoleão Bonaparte, o grande estrategista militar francês, senhor de um poderoso exército, executava manobras coordenadas e velozes para surpreender seus inimigos e, assim, angariar grandes vitórias.

A História nos reserva ainda feitos incríveis, como os do Marechal de Campo Erwin Rommel, mais conhecido como a “Raposa do deserto”, e comandante da divisão fantasma de Panzers na Alemanha nazista. Amparado por pouco mais de uma centena de soldados, Rommel conseguiu a rendição de mais de 9 mil combatentes italianos - sofreu apenas 6 baixas -,  durante a batalha de Caporetto, na I Guerra Mundial.

Na práxis política, Maquiavel, com seu realismo político, ressaltava o distanciamento do moralismo cristão habitual de sua época e nos mostrava o Homem no centro das relações e revestido de um pessimismo antropológico, homens corruptos, ingratos, volúveis, simuladores e ávidos de lucro. Definindo desse modo a natureza humana e expondo a política como ela é. Maquiavel sugeriu formas de como o “líder” deveria conquistar e se manter no poder. Este deveria sopesar a virtú com a fortuna, características essas imprescindíveis para o “governante”. O bom líder teria que saber usar a força e/ou a destreza, que ele ilustrava com a analogia do leão e da raposa.

Maquiavel ensinava a observação de experiências passadas para a reflexão de experiências presentes e futuras. Quando analisa o historiador Tito Lívio, ele vê uma Roma que passa de um reinado para uma república, mostra como foi aquela experiência de organização política num passado distante e nos presenteia com um retrato historiográfico importante, que serviu para que pudesse entender seu tempo e qual rumo a república, na prática, poderia tomar.

Nos dias de hoje, ao tentarmos imaginar qual rumo a política brasileira poderá tomar, um dilema se apresenta: com as atuais mudanças de peças importantes em seu governo, Bolsonaro tentará uma guinada dentro do espaço da lei para vencer as eleições de 2022 ou tentará permanecer no poder por meio de um golpe de Estado?

O certo é que não sabemos o que pode vir pela frente, e quais estrategistas o governo dispõe para tais manobras, o que se sabe, de fato, é que todo passo dado por Bolsonaro, cada peça movida por ele será sempre no sentido de buscar a vitória a todo custo. Nos últimos dias vimos que saíram das pastas os Ministros das Relações Exteriores, da Defesa, da Justiça e da Segurança Pública, o Advogado-Geral da União, o Chefe da Casa Civil e o Secretário de Governo da Presidência.

No meio de toda essa debandada, o que mais intrigou foram as demissões dos comandantes das Forças Armadas. Como se noticiou, no mesmo dia saíram os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica. Segundo a imprensa, esta é a maior crise militar desde 1977. Por coincidência ou não, isso ocorreu um dia antes do aniversário do golpe militar de 1964. O ex-Ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, em sua despedida, escreveu que, durante todo o período em que esteve à frente do cargo, preservou as “Forças Armadas como instituição de Estado”, deixando no ar que queriam usá-la para interesses próprios e particulares, não dentro dos limites estabelecidos pela lei.

Estaríamos diante de uma nova tentativa de refazer os tortuosos labirintos de um período histórico que não deu certo? Se a resposta for sim, será então que os nossos políticos não aprenderam com a História? Será que não assimilaram as lições de Maquiavel em seus “Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio”? Será que não observaram os grandes estrategistas militares? Que não perceberam que repetir uma situação desastrosa é o antagonismo do bom senso político, do bom líder, e que não se age apenas como um leão, mas também como uma raposa?

Bolsonaro está caminhando para chegar forte no próximo pleito ou para ignorá-lo?

Em 1812, Napoleão tentou invadir a Rússia e sofreu com as grandes distâncias e o inverno rigoroso, Hitler também naufragou em seus intentos em 1941, 129 anos depois, amargando uma derrota épica. Nas estratégias políticas, a via entre o acerto e o erro é muito curta. O que parece fora de dúvida, no entanto, é que a História não poupará quem, em pleno século XXI, queira implantar um regime autoritário em detrimento da democracia.

 

Advogado, Relações Públicas e mestrando em Ciências Sociais pela UFRN.

 

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