Em primeiro pronunciamento após a decisão de Fachin, Lula dá a largada para a disputa pelo Planalto em 2022

Em primeiro pronunciamento após a decisão de Fachin, Lula dá a largada para a disputa pelo Planalto em 2022

A anulação das condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no âmbito da Lava-Jato, que o tornou elegível novamente, antecipou a corrida pelo Planalto em 2022 e turbinou a polarização entre petistas e bolsonaristas. Em tom de campanha eleitoral, Lula fez, na quarta-feira (10/3), o primeiro pronunciamento público desde a decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que declarou a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgá-lo nos processos da força-tarefa. O petista disparou contra o ex-juiz Sergio Moro e procuradores da Lava-Jato, e o presidente Jair Bolsonaro. Horas depois, em cerimônia no Planalto, o chefe do Executivo, numa mudança de postura, apareceu de máscara, defendeu sua atuação na crise sanitária e se curvou às vacinas.

Lula chegou de máscara ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e só tirou o item de proteção para discursar, destacando que estava bem distante dos presentes. No pronunciamento, afirmou que o país “não tem governo” e criticou a postura de Bolsonaro na pandemia, enfatizando que um presidente da República não é eleito para falar bobagens ou espalhar fake news.

Na avaliação dele, muitas mortes por covid-19 poderiam ter sido evitadas se o chefe do Executivo tivesse feito “o elementar”, como a instalação de um comitê de crise para acompanhar a situação nos estados e municípios. A crise no Brasil foi acentuada, segundo destacou, porque Bolsonaro não sabe ser presidente. “A vida inteira ele não foi nada. Ele não foi nem capitão, era tenente. Foi promovido porque se aposentou. Se aposentou porque queria explodir quartel, porque virou um dirigente sindical de soldado, queria aumento de salário”, frisou. “Depois disso, não fez mais nada. Foi vereador e depois deputado por 32 anos. E conseguiu passar para a sociedade a ideia de que não era político.”

Lula lembrou que, na época da disseminação do H1N1, o governo se mobilizou rapidamente para imunizar a população. “Nós vacinamos 80 milhões de brasileiros em três meses. Este país tem um sistema de saúde que sabe fazer isso. Cadê o Zé Gotinha? Bolsonaro mandou embora porque pensou que era petista. Este país não tem governo, ministro da Saúde ou ministro da Economia. Tem um fanfarrão”, ressaltou.

O ex-presidente disse que deve ser vacinado na semana que vem e não se importa com a origem do imunizante. “Vou tomar minha vacina e quero fazer propaganda para o povo brasileiro. Não siga nenhuma decisão imbecil do presidente da República ou do ministro da Saúde. Tome vacina”, pregou.

Moro

A Lava-Jato de Curitiba também foi alvo de duras críticas de Lula. O ex-presidente afirmou que foi “vítima da maior mentira jurídica contada em 500 anos de história”. “A quadrilha de procuradores da força-tarefa e o Sergio Moro entenderam que a única forma de me pegar era me levar para a Lava-Jato, porque eu já tinha sido liberado em vários outros processos fora de Curitiba, mas eles tinham como obsessão criar um partido político, porque queriam me incriminar”, acusou.

Ele lembrou do dia em que se entregou à Polícia Federal, após ter a prisão decretada, em 2018. “Fui contra minha vontade, porque sabia que estavam prendendo um inocente. Tomei a decisão de me entregar porque não seria correto aparecer na capa de jornais como fugitivo. Tomei a decisão de provar minha inocência dentro da sede da PF, perto do juiz Moro”, contou.

O petista ressaltou que continuará lutando para que o ex-juiz seja considerado suspeito, pois “Moro não tem direito de se tornar o maior mentiroso do Brasil e ser considerado herói”. “Um deus de barro não dura muito tempo. Eu tenho certeza de que, hoje, ele deve estar sofrendo muito mais do que eu sofri e o Dallagnol também, porque eles sabem que cometeram erros. E eu sabia que não tinha errado”, afirmou, numa referência a Deltan Dallagnol, ex-coordenador da Lava-Jato na capital paranaense.

Planalto

Horas depois, no Planalto, aconteceu a cena rara. Na sanção de lei que permite a compra de mais vacinas contra a covid-19, Bolsonaro usou máscara, assim como ministros. Ele fez um discurso a favor dos imunizantes, defendeu sua atuação no combate à pandemia e se referiu aos lockdowns de 2020 — dos quais foi contra — como ações do governo para que hospitais tivessem tempo para se equipar antes da disparada de casos da doença.

Em entrevista à imprensa, pouco depois da cerimônia, porém, Bolsonaro voltou a atacar governadores que adotam medidas mais rígidas para conter o avanço do vírus, referindo-se aos líderes nordestinos como aliados de Lula. Também afirmou que, se Fernando Haddad (PT) tivesse ganhado a eleição de 2018, o Brasil inteiro estaria em lockdown, o que seria “o caos”.

Sobre as críticas de um “desgoverno”, feitas por Lula, disse que “o governo federal fez sua parte até demais”. “Então, não justifica essa crítica do ex-presidente Lula, que, agora, inicia uma campanha. Como não tem nada para mostrar de bom — e essa é uma regra do PT —, a campanha deles é baseada em criticar, mentir e desinformar”, rebateu. Ele citou também casos de corrupção ligados ao petista e disse que a marca principal do governo de Lula foi o “desmando e a corrupção, voltado para o populismo”.

 

Inocência, não

Ao chamar a população para “lutar” contra o governo Bolsonaro, Lula pediu desculpas pelo longo discurso — de 1h20 — e afirmou: “Faz cinco anos que não falo”. No entanto, apesar da rejeição que aponta ter passado durante esse tempo, o petista considerou que “a Lava-Jato desapareceu da minha vida; estou satisfeito com o reconhecimento da minha inocência”. Na verdade, o petista não foi inocentado pelo ministro Edson Fachin, do STF. O que o magistrado fez foi decidir pela incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar o
ex-presidente nos processos da Lava-Jato e determinar a remessa dos autos à Justiça Federal do DF. Os processos vão começar do zero e podem prescrever.

Candidatura "só mais para frente"

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o PT “não pode ter medo de polarizar”, e, sim, de “não polarizar e ficar esquecido”. Segundo ele, o que não pode acontecer é polarização como a vista nas eleições de 2014 com o PSDB, que, em sua avaliação, “radicalizaram com ódio”.

Para o petista, a sigla “vai sempre disputar eleições para polarizar, seja com Bolsonaro ou qualquer partido”. “Podemos polarizar com quem quer que seja, desde que seja esquerda com direita”, afirmou. O ex-presidente destacou que, desde as eleições de 1988, o PT investe na polarização política.

Para as próximas eleições presidenciais, no entanto, Lula disse que não tem certeza dos seus planos. Segundo ele, discutir candidatura é “só mais para frente”. “Quando chegar o momento, vamos discutir 2022, se vai ter candidato de uma frente ampla ou do PT”, argumentou. Apesar do futuro incerto, ressaltou que, assim que for vacinado, vai voltar a percorrer o Brasil e construir alianças. “Precisamos recuperar relações internacionais para o país crescer, empresários confiarem e retomarmos investimentos.”

Lula disse estar “convencido de que aliança política será possível; por isso, temos que ter paciência”. “Quando chegar o momento de decidir, veremos se vai ser possível construir alianças fora da esquerda”, apontou. “Você pode construir programa que envolva setores conservadores, por exemplo, para vacina e auxílio emergencial. Em 2002, com José Alencar como meu vice, foi a primeira vez que fizemos aliança entre o capital e o trabalho.”

Na visão dele, o apoio a favor de Ciro Gomes em 2022 ainda é incerto. “Se Ciro Gomes continuar com grosserias, não vai ter apoio da esquerda nem confiança da direita”, comentou. O petista disse não ter certeza sobre o governador de São Paulo, João Doria. “Temos um candidato do PSDB, vamos desenterrar aquele Doria?”, questionou.

O ex-comandante do Planalto também rebateu o medo do mercado financeiro em relação à possibilidade de que ele se candidate à Presidência em 2022. Disse que gostaria que o temor de agentes de mercado tivesse fundamento, apontando que eles conviveram com o PT durante os oito anos de seus dois mandatos presidenciais e os seis anos sob o governo da ex-presidente Dilma Rousseff.

Em seguida, Lula declarou posição contrária à autonomia do Banco Central, transformada em lei no fim de fevereiro, frisando que é melhor a autarquia estar “na mão do governo do que nas do mercado”.

Outro tema levantado foi a venda de ativos da Petrobras. Lula mandou recado a potenciais compradores do portfólio que o governo Bolsonaro tem oferecido ao setor privado: “A gente pode mudar muita coisa”, alertou, sugerindo reversão da diretriz de desinvestimentos da companhia se o PT voltasse a dirigir o país.

Segundo o ex-presidente, Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, estão “vendendo” o Brasil para o exterior. “Não é possível que o preço do combustível siga cotação internacional, se nós produzimos petróleo aqui”, enfatizou. Ele acusou o governo de estar se “desfazendo de tecnologia do pré-sal em nome do deus mercado e do petróleo”.

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