Cortes na Educação: Para governo, estudante está errado e apenas pauta de apoiador é legítima

Cortes na Educação: Para governo, estudante está errado e apenas pauta de apoiador é legítima

Uma nova manifestação de estudantes, professores e movimentos sociais acontece em capitais e cidades do interior, nesta quinta (30), para protestar não apenas contra os cortes no orçamento da Educação, mas também pela falta de uma política nacional para o setor. Enquanto isso, o governo federal ataca a realização do evento e faz de tudo para questionar sua legitimidade, por exemplo, afirmando que ele é fruto de "coação" de docentes contra alunos – comportamento muito diferente dado às manifestações de bolsonaristas no último domingo.

Apoiadores do presidente e de seus ministros foram às ruas, no último dia 26, manifestar-se a favor deles, contra aqueles que limitam o poder do "mito” e defender suas pautas de reformas.

Ato contínuo, membros da administração federal passaram a semana dizendo que é necessário e urgente atender o que as ruas pedem. Mas não qualquer rua, apenas aquela com a qual eles estão sintonizados. Ou seja, a rua preenchida com seus apoiadores, que também são adversários de seus adversários e empunham uma agenda que foi pautada pelo próprio governo e seus patrocinadores.

Com exceção das demandas por fechamento do Congresso Nacional, deposição de ministros do Supremo Tribunal Federal, intervenção militar constitucional, vulgo, golpe, a defesa dessa agenda é legítima. Mas o comportamento do governo, como se não tivesse ajudado na convocação das manifestações e não estivesse instrumentalizando essa pauta a seu favor, é um elogio ao descaramento.

Simultaneamente, as pautas em defesa da educação e da ciência, defendidas na manifestação do 15 de maio, são consideradas ideologizadas e fruto da manipulação de pobres estudantes-zumbis por professores-doutrinadores. É necessário e urgente atender o que as ruas pedem? Sim, mas como disse, não qualquer rua.

Porque, para o governo, há ruas com as pautas certas (aquelas com as quais ele concorda) e com pautas erradas (aquelas das quais discorda). Por esse ponto de vista, dia 26 valeu e, com isso, suas pautas e os manifestantes receberam o Selo Talkey de Qualidade.

Já dia 15, não. Inicialmente porque foi composto de milhares de "idiotas úteis" e "imbecis", nas palavras do próprio presidente. Após um toque por partes dos auxiliares de que chamar esse grupo dessa forma não pegou bem, os estudantes foram reembalados como "inocentes úteis" e "garotos inocentes, [que] nem sabiam o que estavam fazendo lá". O que nos leva a uma dúvida: se fossem garotas, talvez soubessem?

Para Bolsonaro, "a molecada foi usada por professores inescrupulosos para fazer manifestação política contra o governo". Os exércitos digitais do presidente passaram a semana seguinte tentando vender a ideia de que a manifestação era um grande "Lula Livre" e os alunos eram todos do MST – tendo um certo sucesso.

Nem a pauta, nem os manifestantes receberam o Selo Talkey de Qualidade porque falam outro idioma. O presidente, novato na administração pública, se expressa pela língua do contingenciamento, enquanto estudantes e professores, pós-graduados na cristalização da precariedade de condições de ensino, falam a língua do corte.

Fonte: Blog do Sakamoto

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